A gravidade da crise econômica mundial, originada na débâcle do mercado de hipotecas subprime dos Estados Unidos, parece realmente não mais se constituir uma surpresa ou novidade a nenhum leigo. Assim como também não é desconhecida a possibilidade de ainda estarmos frente somente a uma ponte do iceberg. Ou seja, pode haver mais catástrofes à vista.
Suposições e opiniões a respeito da crise norte-americana convergem para um ponto em comum: ningúem sabe, com precisão, a magnitude e os efeitos que a recessão norte-americana pode causar. Não é difícil constatar tal afirmação. Basta analisarmos semanalmente as manchetes das principais revistas brasileiras. É impressionante, e ao mesmo tempo vergonhoso, como a mídia muda de opinião a cada novo dia. Há exemplos sólidos de divergências de opiniões em revistas como a "Isto é" e jornais eletrônicos como o "Correio da Cidadania". Na revista "Isto é", por exemplo, se analisarmos a edição número 2029 (24 de setembro de 2008) na página 39, encontraremos a seguinte afirmação: "Que crise? A economia brasileira mostra solidez diante do terremoto que abalou os pilares do capitalismo americano". E, ironicamente, na mesma edição, na página 43, há um artigo respondendo à pergunta: "Por que somos tão voláteis?". Tal edição está um pouco, digamos, pleonástica, pois como pode um país cuja bolsa de valores sofre tantas oscilaçoes estar tão sólido diante do "terremoto" norte-americano?
No jornal eletrônico, "Correio da Cidadania", o analista político e escritor, Wladimir Pomar, diz em sua reportagem intitulada "A Crise e seus abalos" que "se países emergentes, como Brasil, Russia, Índia e China suportarem a atual crise sem grandes danos, é possível que a hegemonia norte-americana saia combalida da crise, embora ainda suficientemente poderosa para provocar estragos pelo mundo". Realmente, é possível sim que a economia dos EUA saia ainda suficientemente poderosa para provocar estragos pelo mundo, porém creio ser muito difícil que os países emergentes saiam imune dessa crise. É difícil, pois esses países (em especial o Brasil) ainda são muito dependentes do capital internacional e das exportações de commodities.
No jornal eletrônico, "Correio da Cidadania", o analista político e escritor, Wladimir Pomar, diz em sua reportagem intitulada "A Crise e seus abalos" que "se países emergentes, como Brasil, Russia, Índia e China suportarem a atual crise sem grandes danos, é possível que a hegemonia norte-americana saia combalida da crise, embora ainda suficientemente poderosa para provocar estragos pelo mundo". Realmente, é possível sim que a economia dos EUA saia ainda suficientemente poderosa para provocar estragos pelo mundo, porém creio ser muito difícil que os países emergentes saiam imune dessa crise. É difícil, pois esses países (em especial o Brasil) ainda são muito dependentes do capital internacional e das exportações de commodities.
Quanto às repercussões na economia brasileira, a dúvida é, no entanto, o que predomina entre os cidadãos que acompanham atônitos a maior depressão desde a crise de 1929 (alguns economistas e estudiosos do assunto dizem que essa crise possui uma dimensão relativamente maior que a de 1929, por estar o mundo muito mais interligado atualmente que há 80 anos atrás). A despeito das enormes descidas morro abaixo da Bolsa de Valores de São Paulo, deparam-se esses cidadãos com estatísticas muito favoráveis relativamente ao crescimento da economia e da renda, à diminuição do desemprego, dando conta estas estatísticas até mesmo de um incremento da classe média do país, a qual teria tomado o lugar da pobreza.
Nossas reservas externas seriam, ademais, grandes o suficiente para reforçar os nossos sólidos fundamentos econômicos e garantir a estes trópicos um bom lugar na travessia da tormenta.
Nossas reservas externas seriam, ademais, grandes o suficiente para reforçar os nossos sólidos fundamentos econômicos e garantir a estes trópicos um bom lugar na travessia da tormenta.
Não é, infelizmente, esta otimista noção quanto à crise mundial e suas repercussões internas que transparece na opinião de muitos especialistas.
O ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, afirma convicto que a crise causará enormes estragos ao país. "O Brasil já foi atingido. A bolsa de valores caiu violentamente, o real se desvalorizou, a taxa de câmbio subiu e as empresas brasileiras que têm empréstimos no exterior estão com muitas dificuldades de renová-los. Assim, a reserva internacional começou a diminuir". Ele lembra que, apesar da retórica, o governo já reconheceu a gravidade da situação ao reduzir o compulsório dos bancos e ao injetar dinheiro na economia. Mas o economista acha que estas medidas ainda são tímidas.
"O Brasil deveria adotar políticas de controle de câmbio e de regulação das exportações", sugere Lessa. Mesmo com nuances no diagnóstico, Pochmann também defende medidas mais incisivas para defender a economia. Ele lembra que a crise colocou em xeque a hegemonia dos EUA e os dogmas neoliberais, em especial a flexibilização financeira. "É necessário o Estado para garantir maior regulação e condição saudável para a existência da economia. Acredito que estamos diante de um novo movimento de pêndulo para a ampliação da regulação sobre a economia capitalista". Para ele, é urgente aumentar os mecanismos de controle sobre o sistema financeiro.
Até o ex-ministro Delfim Netto, tzar da economia durante a ditadura militar, propõe endurecer a relação com os bancos. Defensor da economia de mercado, avalia que a desregulamentação saiu de controle e defende maior intervenção estatal. "Diante de uma crise sistêmica, não adianta querer discutir. Não estamos tratando de questões filosóficas, mas de problemas práticos". Para garantir liquidez, ele propõe que o Banco Central e o Ministério da Fazenda firmem um acordo com os bancos para enfrentar a crise. "Eles terão de cooptar os banqueiros. É dizer: olhem aqui, vocês podem até empoçar o dinheiro que têm, mas vão pagar um preço caro".
O Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, avalia que o Brasil pode estar, em certos pontos, mais preparado para a crise, mas para ele "o pior ainda está por vir" e "ninguém está imune à crise. O Brasil, por mais preparado, também não". Ele ainda aponta um risco pouco citado por outros analistas, o da grave crise na agricultura. "Muitos investidores estrangeiros colocaram seu dinheiro nas commodities nos últimos meses, fugindo do dólar. Com a crise, o primeiro impacto é o fim dos créditos e as dívidas contraídas podem ser um problema no campo. Além disso, tudo indica que os preços das commodities vão cair. A bolha no Brasil pode estar no campo.
Em suma: a crise mundial, deflagrada nos EUA, é das mais graves da história do capitalismo. Ela foi agravada pela desregulamentação imposta pela dogmática neoliberal, sob hegemonia do capital financeiro. Nenhum país ficará imune aos seus efeitos destrutivos. No caso brasileiro, a vulneralibilidade conjuntural hoje é menor. Mesmo assim, o país já foi atingido. O Brasil ainda é muito dependente da liquidez externa e da exportação de produtos de baixo valor agregado - das commodities. Para evitar que a gripe vire tuberculose, o governo precisará adotar medidas mais duras de controle do fluxo de capitais e de regulamentação do sistema financeiro, entre outras.
Por: Thiago Cordeiro da Silva.
Fontes: http://www.correiodacidadania.com.br/; Revista Isto É.
Créditos: Altamiro Borges (jornalista, membro do Comitê Central do PC do B e autor do livro recém-lançado "Sindicalismo, resistência e alternativas").
Agradecimentos: Felipe B. Marazzi pelo apoio e reconhecimento.