sábado, 25 de outubro de 2008

A crise norte-americana e seus efeitos no Brasil.

A gravidade da crise econômica mundial, originada na débâcle do mercado de hipotecas subprime dos Estados Unidos, parece realmente não mais se constituir uma surpresa ou novidade a nenhum leigo. Assim como também não é desconhecida a possibilidade de ainda estarmos frente somente a uma ponte do iceberg. Ou seja, pode haver mais catástrofes à vista.

Suposições e opiniões a respeito da crise norte-americana convergem para um ponto em comum: ningúem sabe, com precisão, a magnitude e os efeitos que a recessão norte-americana pode causar. Não é difícil constatar tal afirmação. Basta analisarmos semanalmente as manchetes das principais revistas brasileiras. É impressionante, e ao mesmo tempo vergonhoso, como a mídia muda de opinião a cada novo dia. Há exemplos sólidos de divergências de opiniões em revistas como a "Isto é" e jornais eletrônicos como o "Correio da Cidadania". Na revista "Isto é", por exemplo, se analisarmos a edição número 2029 (24 de setembro de 2008) na página 39, encontraremos a seguinte afirmação: "Que crise? A economia brasileira mostra solidez diante do terremoto que abalou os pilares do capitalismo americano". E, ironicamente, na mesma edição, na página 43, há um artigo respondendo à pergunta: "Por que somos tão voláteis?". Tal edição está um pouco, digamos, pleonástica, pois como pode um país cuja bolsa de valores sofre tantas oscilaçoes estar tão sólido diante do "terremoto" norte-americano?
No jornal eletrônico, "Correio da Cidadania", o analista político e escritor, Wladimir Pomar, diz em sua reportagem intitulada "A Crise e seus abalos" que "se países emergentes, como Brasil, Russia, Índia e China suportarem a atual crise sem grandes danos, é possível que a hegemonia norte-americana saia combalida da crise, embora ainda suficientemente poderosa para provocar estragos pelo mundo". Realmente, é possível sim que a economia dos EUA saia ainda suficientemente poderosa para provocar estragos pelo mundo, porém creio ser muito difícil que os países emergentes saiam imune dessa crise. É difícil, pois esses países (em especial o Brasil) ainda são muito dependentes do capital internacional e das exportações de commodities.

Quanto às repercussões na economia brasileira, a dúvida é, no entanto, o que predomina entre os cidadãos que acompanham atônitos a maior depressão desde a crise de 1929 (alguns economistas e estudiosos do assunto dizem que essa crise possui uma dimensão relativamente maior que a de 1929, por estar o mundo muito mais interligado atualmente que há 80 anos atrás). A despeito das enormes descidas morro abaixo da Bolsa de Valores de São Paulo, deparam-se esses cidadãos com estatísticas muito favoráveis relativamente ao crescimento da economia e da renda, à diminuição do desemprego, dando conta estas estatísticas até mesmo de um incremento da classe média do país, a qual teria tomado o lugar da pobreza.
Nossas reservas externas seriam, ademais, grandes o suficiente para reforçar os nossos sólidos fundamentos econômicos e garantir a estes trópicos um bom lugar na travessia da tormenta.

Não é, infelizmente, esta otimista noção quanto à crise mundial e suas repercussões internas que transparece na opinião de muitos especialistas.

O ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, afirma convicto que a crise causará enormes estragos ao país. "O Brasil já foi atingido. A bolsa de valores caiu violentamente, o real se desvalorizou, a taxa de câmbio subiu e as empresas brasileiras que têm empréstimos no exterior estão com muitas dificuldades de renová-los. Assim, a reserva internacional começou a diminuir". Ele lembra que, apesar da retórica, o governo já reconheceu a gravidade da situação ao reduzir o compulsório dos bancos e ao injetar dinheiro na economia. Mas o economista acha que estas medidas ainda são tímidas.

"O Brasil deveria adotar políticas de controle de câmbio e de regulação das exportações", sugere Lessa. Mesmo com nuances no diagnóstico, Pochmann também defende medidas mais incisivas para defender a economia. Ele lembra que a crise colocou em xeque a hegemonia dos EUA e os dogmas neoliberais, em especial a flexibilização financeira. "É necessário o Estado para garantir maior regulação e condição saudável para a existência da economia. Acredito que estamos diante de um novo movimento de pêndulo para a ampliação da regulação sobre a economia capitalista". Para ele, é urgente aumentar os mecanismos de controle sobre o sistema financeiro.

Até o ex-ministro Delfim Netto, tzar da economia durante a ditadura militar, propõe endurecer a relação com os bancos. Defensor da economia de mercado, avalia que a desregulamentação saiu de controle e defende maior intervenção estatal. "Diante de uma crise sistêmica, não adianta querer discutir. Não estamos tratando de questões filosóficas, mas de problemas práticos". Para garantir liquidez, ele propõe que o Banco Central e o Ministério da Fazenda firmem um acordo com os bancos para enfrentar a crise. "Eles terão de cooptar os banqueiros. É dizer: olhem aqui, vocês podem até empoçar o dinheiro que têm, mas vão pagar um preço caro".

O Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, avalia que o Brasil pode estar, em certos pontos, mais preparado para a crise, mas para ele "o pior ainda está por vir" e "ninguém está imune à crise. O Brasil, por mais preparado, também não". Ele ainda aponta um risco pouco citado por outros analistas, o da grave crise na agricultura. "Muitos investidores estrangeiros colocaram seu dinheiro nas commodities nos últimos meses, fugindo do dólar. Com a crise, o primeiro impacto é o fim dos créditos e as dívidas contraídas podem ser um problema no campo. Além disso, tudo indica que os preços das commodities vão cair. A bolha no Brasil pode estar no campo.

Em suma: a crise mundial, deflagrada nos EUA, é das mais graves da história do capitalismo. Ela foi agravada pela desregulamentação imposta pela dogmática neoliberal, sob hegemonia do capital financeiro. Nenhum país ficará imune aos seus efeitos destrutivos. No caso brasileiro, a vulneralibilidade conjuntural hoje é menor. Mesmo assim, o país já foi atingido. O Brasil ainda é muito dependente da liquidez externa e da exportação de produtos de baixo valor agregado - das commodities. Para evitar que a gripe vire tuberculose, o governo precisará adotar medidas mais duras de controle do fluxo de capitais e de regulamentação do sistema financeiro, entre outras.
Por: Thiago Cordeiro da Silva.
Fontes: http://www.correiodacidadania.com.br/; Revista Isto É.
Créditos: Altamiro Borges (jornalista, membro do Comitê Central do PC do B e autor do livro recém-lançado "Sindicalismo, resistência e alternativas").
Agradecimentos: Felipe B. Marazzi pelo apoio e reconhecimento.

4 comentários:

Anônimo disse...

A crise enfrentada pelo mercado hipotecário nos Estados Unidos, que levou à situação de aperto no crédito global, já foi em grande parte superada. O que o mercado sofre agora são os efeitos colaterais dela.
A desaceleração da economia dos EUA apressou a depreciação do dólar, permitindo que o euro a batesse recordes sucessivos nas últimas sessões.
Hoje em dia, temos duas moedas para armazenar valor no mundo. O dólar e o euro. Se uma cai, a outra tende a subir. Segundo a Dow Jones.
Já a questão da mídia em si, ela não está sendo pleonástica, mas os fatos mundias que são incoerentes. Particularmente, como é que um analista pode dizer que a crise não está dentro do Brasil, sendo que cerca das maiores multinacionais norte-americanas estão em nosso território? (apenas um argumento para solidificar o raciocínio)
Essa crise é para ser sofrida no mundo inteiro, mas é claro que em cada lugar de uma forma.
Marx dizia que a religião era o ópio da sociedade, para mim a Mídia é o ópio que nos entorpecem com informações que mostram muito bem um lado, mas esquecem de mostrar o outro.
Bem-vindo ao mundo capitalista, meu Caro.
Desconhecemos a dominação, podemos ter até percepção dela. Mas o rico, quando senta-se para jantar não pensa em quantos desgraçados ele "fudeu" ontem, hoje e vai continuar fazendo isso amanhã. Para o rico é normal existir pobreza, para o pobre é normal ser pobre.

Abraços, Danilo.

Anônimo disse...

Fico extremamente contente ao ver um amigo participando em todas minhas postagens, ainda mais quando se trata de uma pessoa tão especial que é você, Danilo. Sinto falta de conversar com você, mas esta falta é amenizada ao saber que você acessa o blog e compartilha suas opiniões.

Agradeço a sua análise do dólar em relação ao euro, pois isso me impulsionou a criar uma nova postagem sobre esse assunto tão polêmico, mas que poucos entendem.

Já em relação a sua afirmação sobre a mídia, tenho certas opiniões que gostaria de compartilhar com você.

Primeiramente, temos que lembrar que a globalização tornou o mundo muito mais interligado e a economia muito mais complexa nas últimas décadas. Certamente, tal complexidade tende a incoerência. Porém, ao analisarmos sucintamente o quadro economico mundial, percebemos que a mídia explora tanto essa incoerência que a maioria das reportagens acabam se tornando sim pleonásticas.
Em sua própria definição do que é a mídia já é possível ressaltar traços pleonásticos, pois ao mostrar muito bem somente um dos lados a mídia ignora seu principal objetivo, que seria transmitir a notícia da maneira o mais fiel com a realidade possível.
Exemplos clássicos de omissão da realidade sâo a grande maioria das revistas brasileiras. Citemos a Revista Veja como exeplo.

Com confirmação do ilustre Luiz Antônio Magalhães, Veja parece ter perdido definitivamente o rumo, talvez em função do vexame histórico na cobertura da crise financeira internacional. Afinal, não é todo dia que uma redação prepara uma capa espetacularmente incisiva, com o Tio Sam de dedo em riste e a manchete garantindo "Eu salvei você" (edição 2079, com data de 24/9/2008), para, dias depois, essa mesma capa se transformar num case de "barriga" jornalística, uma vez que o crash de 29 de setembro revelou não apenas que o Tio Sam não havia conseguido salvar ninguém como estava desesperadamente em busca de uma solução que envolvesse a União Européia e até países emergentes. A "barriga" foi tão descomunal que na semana seguinte a rival Carta Capital fez graça e repetiu a capa da Veja, com o mesmo Tio Sam de dedo em riste, acompanhado por uma manchete marota: "Ele não salva ninguém".
Se o problema fosse apenas na forma, tudo bem, "barrigas" acontecem nas melhores redações (em Veja, com uma freqüência um tanto maior, estão aí o boimate, os milhões do Ibsen Pinheiro e os dólares de Cuba que não me deixam mentir). A questão central não está na forma, está no conteúdo.

Veja há muito tempo não é uma revista jornalística, mas um panfletão conservador, editado por uma equipe que conta com a fina flor do pensamento reacionário brasileiro. A crise global, porém, parece ter mexido com os nervos do pessoal da Veja e o panfletão perdeu o rumo.

Em um primeiro momento, Veja apresentou ao distinto público a idéia de que a crise já tinha acabado com o anúncio do primeiro pacote de Bush-Paulson; o que havia era um "soluço" absolutamente normal no capitalismo. Na semana seguinte, com data de capa de 1° de outubro, mas circulando no fim de semana de 27-28 de setembro, portanto às vésperas do crash de 29/9, a revista da Editora Abril voltou a dar capa para a crise, fazendo uma espécie de "balanço" do que vinha ocorrendo. "Depois do desastre" era a manchete da capa – mas o desastre real ainda nem tinha acontecido.

No fundo, Veja age na política e na economia seguindo a máxima do ex-ministro Rubens Ricupero: o que é bom (para o ideário conservador), a gente mostra; o que é ruim, a gente esconde. E isto, fica aqui o reconhecimento, o pessoal da redação de Veja sabe fazer como ninguém.

O que sabemos da verdade é muito pouco comparado com o que tentam esconder. Seria ético e coerente com a sociedade se a mídia utilizasse de seus artifícios para transmitir com o máximo de exatidão possível as informações mundiais.
Concordo sim que o sistema privilegia poucos em detrimento de muitos. É, porém, triste saber que são esses poucos que tentam incansavelmente corromper a mídia.
É mais triste ainda saber que a grande maioria da sociedade é corrompida por aqueles que mais a exploram.

Espero que tenha deixado bastante claro a minha interpretação de "pleonástico".

Um grande abraço, Thiago C. da Silva.

Anônimo disse...

-Sinto falta também das conversas informais e sem compromisso.
-Quando tiver uma oportunidade, venha fazer uma visita. Será, como sempre foi, bem-vindo ao meu apartamento.
Infelizmente tenho tido pouco tempo, pouco até pensar. Estou trabalhando e tampouco consigo conciliar o trabalho com os estudos, tenho me esforçado.
-Caso queria que eu lhe envie alguns temas para abortar aqui em seu blog, me envie um e-mail para dm@acad.espm.br.
-Eu costumava ter um blog que chamava-se Radar Social, ele ilustrava bem isso que você trata aqui.

-Abs, Danilo Moraes.

Anônimo disse...

Sensacional, analises perfeitas e comentarios sensatos. Nao poderia esperar menos de alguem com tao grande nivel cultural e interesse pela economia e politica.
Texto completo e claro, diria ate mais interessante do que os que costumamos ler e assistir com frequencia pela midia afora.
Meus parabens! O blog esta melhorando e se tornando um otimo passatempo para quem gosta de boa informacao e senso critico.
Continue assim ;)